
UM CONJUNTO DE CASAS CONHECIDAS NO PASSADO POR VILA OPERÁRIA DE PONTEZINHA
A vila operária de Pontezinha pertencia à antiga fabrica de pólvora Pernambuco Powder Factory, dos imigrantes suecos pertencentes à família Lundgren sendo, ao todo, quatro integrantes. Coube a Artur Lundgren, a fundação da fábrica em 1861, tendo construído a vila operária em 1866. Essa empresa constituiu-se como a primeira fábrica de pólvora privada do Brasil.
Fabricava pólvora e dinamite. Sua criação coincide com o aumento do consumo nacional do produto correlato à Guerra do Paraguai. A indústria foi implantada numa localidade rural, no município do Cabo de Santo Agostinho, próxima à linha da Estrada de Ferro Recife – Cabo (a segunda ferrovia construída no Brasil). E numa área que distanciava um pouco da área fabril, até por medidas de segurança, foram construídas 180 casas de vila. A maioria das casas se dispunha em longos blocos, construídas no século XIX, cercaduras contornam a janela e a porta da fachada, percorrida por um alpendre. Este padrão de pequenas casas semelhantes e coladas, abrindo para um alpendre frontal, comum ao longo de todo o edifício e cobertas com um mesmo telhado de duas águas, remete à forma usual das senzalas no Nordeste, testemunhando vínculos importantes entre a moradia e a paisagem do engenho colonial e a de núcleos fabris dos séculos XIX e XX, quando, nas senzalas, o telhado dos alpendres era apoiado em colunas, uma após outras, mantendo suas características originais.
Houve, em agosto de 2001, no governo Elias Gomes, um projeto em que contemplava com um plano de revitalização dessas 180 casas que compunham a vila, onde seriam transformadas em Pólo de Cultura para Pontezinha, onde iria funcionar o Pátio do Coco, para preservação de uma manifestação cultural (dança do coco de roda), mantida até hoje na localidade. O pátio seria delimitado pela Avenida Conde da Boa Vista (BR-101 Sul), Rua Ver. Horácio Ferraz Cavalcanti, Rua do Repentista e Rua Centenária.
Pela proposta da Prefeitura, seriam essas casas desapropriadas e reocupadas com usos variados, em apoio ao pólo cultural: Padaria, casa de frutas nordestinas, cachaçaria, cafeteria, loja de doces e salgados típicos da região, museu de manifestações populares, venda de artesanato, casa das crianças com o resgate das brincadeiras de rua, loja de conveniência, restaurantes self-service e especializados em frutos do mar, massas e outros. As demais manteriam seus usos atuais. Sendo assim, a exploração das casas seria aberta aos cidadãos do Cabo e aos investidores de outras cidades.
É bem verdade que o projeto era arrojado mas, no próprio projeto aparecem falhas quando a própria prefeitura pedia, no passado, o tombamento das 180 casas e agora vinha com outros planos para desapropriar 53 casas e transformar a área num pólo cultural estimado em R$ 3 milhões, financiados pela Fidem (Fundação de Desenvolvimento Municipal), onde não sabemos se a Fidem tinha financiado o projeto, mas de uma coisa temos certeza, nada foi feito ou executado pela Fundarpe naquele período de dois (2) anos, como estava programado o projeto e até hoje continua sem solução.
Em publicação do mês de agosto de 2001, era estampado o pedido da prefeitura do Cabo de Santo Agostinho - através de Arnaldo Santana, Gerente de Planejamento - do tombamento da Vila Operária de Pontezinha à Fundação de Patrimônio Artístico e Cultural de Pernambuco (Fundarpe). O pedido foi deferido, publicado em edital e está sendo analisado pela Fundarpe. Com isso, até o desfecho do processo, nenhum morador poderia alterar as características das casas, naquela ocasião.
“ Quando o processo é aberto, o bem fica sob regime de tombamento” diz a Gerente do Departamento de Preservação e Tombamento da Fundação, Rosa Bonfim. Após a análise técnica, o parecer da Fundação, declarando se a vila merece ou não ser tombada em definitivo, será encaminhado ao Conselho Estadual de Cultura, que dará a palavra final.
Segundo a coordenadora de Sítios Históricos do Cabo, Nayara Leitão, várias casas foram descaracterizadas. Para evitar o problema, na semana passada foi iniciado um trabalho de conscientização da comunidade, mostrando a importância histórica da vila operária e as vantagens de ocupar o imóvel tombado. “Existe uma linha de financiamento da Caixa Econômica para facilitar a compra e restauração de casas tombadas. A prefeitura pode ajudar com apoio técnico na elaboração dos projetos”, informa Nayara Leitão. O município também está estudando a possibilidade de conceder incentivos fiscais (descontos no IPTU, ISS, ITBI, etc.) para as pessoas que desejam preservar as características originais do imóvel.
As casas têm, em média, 50 metros quadrados e são construídas em alvenaria. “O conjunto ainda mantêm uma unidade e um grau de preservação significativo”, diz o gerente de Planos e Projetos da Secretaria de Planejamento da cidade, Arnaldo Santana. Ele destaca a localização estratégica da vila, à margem da BR-101-Sul, cortada pela linha férrea, próxima à Zona Sul do Recife, da Lagoa Olho D’Água (Jaboatão) e da reserva florestal da fábrica de pólvora. “Tudo isso permite uma articulação com o órgão responsável pelo turismo ecológico”.
E, finalizando, Arnaldo Santana aponta as reformas indevidas nas casas e o fluxo intenso de veículos como principais ameaças ao patrimônio. Com relação ao plano de revitalização da vila, ele disse que o principal objetivo é criar um espaço diferente do que já existe no Bairro do Recife. “Queremos valorizar a cultura popular pernambucana e nordestina, melhorando as condições de habitação, a qualidade dos espaços públicos e a atividade econômica local”.
E tem mais, no dia 25 de setembro de 2001, saiu publicado no Jornal do Commércio, que os moradores da Vila Operária eram contra o tombamento e desapropriação das 53 casas residenciais. Seguem alguns depoimentos de pessoas ouvidas naquela ocasião como Isaías Gomes: Não somos contrários ao projeto, apenas entendemos que a população deveria ter o direito de ficar nas suas casas. Condenamos a imposição de só ter comércio na área piloto. Isso deixou todo mundo insatisfeito, concluiu Isaias. Também Elisa Alves e Abnoam Gomes, representantes do Centro de Solidariedade aos Moradores de Pontezinha, concordam com essa declaração. Eles alertam que a execução e a conservação do projeto, sem o apoio da comunidade, é muito difícil. “Se a vila faz parte da história de Pontezinha, os moradores também fazem e devem ser respeitados”, reforça Elisa Alves. Segundo ela, o local escolhido para receber as 53 famílias é perigoso, com registros constantes de assaltos. “ Não entendemos como será essa relocação, se no lugar não existe uma única casa construída”, comentam. Os três representantes comunitários disseram que só foram informados do projeto pela imprensa e que também desconheciam o pedido de tombamento da Vila. Muitos receberam as casas como pagamento de indenização da fábrica de pólvora.
O Conselho Social dos Moradores de Pontezinha, através de seu Presidente, Heraldo Ferraz Cavalcanti, também fez reunião em favor do não tombamento dessas casas, trazendo naquela ocasião os representantes da Fundarpe e Secretários da Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho.
É bem verdade que dos interessados nesta causa, poucos compareceram e não falaram com era esperado, apesar de terem sido eles mentores principais do tão falado projeto de tombamento.
Heraldo Ferraz