PROFESSOR: PEDRO DOS SANTOS DIAS FILHO

 

 

Quem dos moradores de Pontezinha, especialmente do Camboim, (Rua Ernestina Batista, Nº. ) não conheceu o velho professor PEDRO DIAS, figura de andar desajeitado em cima de um sapato desgastado pelo tempo, com um sorriso debochado e alguns livros debaixo do braço, lá ia Pedro para mais um dia de aula.
Nascido no engenho Jundyá, lá para as bandas da cidade da Escada, filho de Pedro dos Santos Dias e Maria Gentil de Barros Dias.  Seus pais tiveram mais de dez (10) filhos: Antonio, Manoel, José, Maria de Lourdes, Pedro, Cícero, Feliciana, João, Maria, Mário e Rômulo. Entre eles, o mais famoso, CICERO DIAS, conhecido pela suas pinturas surrealistas, onde se dedicou a pintar mulheres e os canaviais de engenhos e PEDRO, o meu entrevistado.
Em uma bela tarde, encontro Pedro a conversar com papai, onde eram bons amigos, e falei sobre uma matéria que estava fazendo do seu irmão e que ia apresentá-la na maçonaria e estava precisando de sua ajuda, pela qual “me prontifico”, falou ele, aos esclarecimentos que fossem necessários. Marcamos um encontro em sua casa, e um fato desagradável aconteceu: ao chegar à casa do Pedro e ao bater palmas, saiu uma velha dizendo ser esposa e perguntando o que eu queria, foi logo agredindo com palavras de baixo calão, dizendo que eu estava arrumando mulher para seu marido e outros desaforos. Fui salvo, na hora, por Pedro que ia chegando. Pedindo desculpas, Pedro mandou que a mulher se retirasse e mandou-me entrar.
Dessa entrevista, passei a conhecer também a história de Pedro Dias, quando me contou ter sido revolucionário na época de 30 quando, segundo ele, teve de fugir do Palácio do Campo das Princesas, passando pela porta da frente vestido de mulher, ele e o governador Epitácio Pessoa, com destino ao porto onde embarcou para o Rio de Janeiro. Também conversamos muitos sobre seu irmão e da vida que ambos levavam no engenho Jundyá e das cartas que Cícero Dias enviava da França para Pontezinha e traduzidas em português pelo próprio Pedro, que dizia do interesse do irmão, convidando-o para morar com ele, em Paris, mais com uma condição, não levar a velha (esposa que era malquista pela vizinhança), pois, segundo Pedro, “Cícero não suportava ela e esse era o impasse maior para eu não morar com Cícero”.
Quanto ao engenho, ainda lembro bem quando meu pai, dizendo para minha mãe, da sua preocupação com os estudos dos filhos, pois via o interesse de Cícero pela pintura nos seus oito anos, enquanto Manoel e José, de batoque, embreavam-se pelos matos a tomar banho de rio e pescar. Já Antônio e Rômulo cuidavam de uma pequena roça que papai tinha no quintal e as meninas, a bordar. Quanto a João, foi morar no Cabo de Santo Agostinho, mais precisamente na praia de Gaibu, e eu fui pra casa de tia Angelina em Recife, com Cícero e, numa das visitas de nossos avós, levaram Cícero para morar com eles em um velho casarão.
Antes de Cícero ir para o Rio de Janeiro, com seus 13 anos, tivemos vários encontros. Eu, um ano mais moço do que Cícero, mas já voltado para a política do meu Estado, onde já eram fortes os ataques comunistas, através de Carlos Prestes, às bases aliadas do governo.
E hoje, professor, como o senhor vê a nossa política? Olha Heraldo, bem diferente da daqueles tempos, onde faltava tudo e ainda esses camaradas (comunistas), tirando o sossego da nação com suas idéias socialistas, marxistas e leninistas, trazendo mais transtorno em vez de soluções.
Hoje, diz Pedro, ao se referir ao passado, temos uma política definida, que é a democracia, e o que é mais importante, as forças armadas no poder.
Isso Heraldo, terá um tempo, depois passam para os civis, ai volta tudo ao que era e, talvez, com mais violência que antes. Quem viver, verá o que estou dizendo, finalizou o professor Pedro Dias.
Eu tinha um amigo por nome de José barbeiro (falecido) onde como panificador colocava meus pães, e um dia a visitá-lo encontrei conversando com Pedro animadamente, foi quando parou um carrão, saltando um senhor de uma idade bem avançada de onde Pedro foi ao seu encontro o abraçando e apresentando como seu irmão. Foi daí, que conheci o famoso Cícero Dias, compadre do tão famoso pintor francês Pablo Picasso, como bem conta Cícero, ao falar do seu melhor amigo, e das suas viagem a sua terra.   
O grande professor Pedro Dias, referendado no nosso Estado por sua liderança, além de mostrar o saber a milhares de adolescentes que, mais tarde, se transformaram em médicos, dentistas, engenheiros, economistas, geólogos, enfim, grandes profissionais que tiveram de sair da nossa terra para se especializarem e ganharem suas projeções a níveis nacional e internacional.
Faleceu no Cabo de Santo Agostinho, no Abrigo São Francisco, vítima de uma grave enfermidade o câncer, talvez esquecido por uma comunidade que não soube valorizar a qualidade de seus  trabalhos do nosso Ilustre amigo.
Professor Pedro Dias, aqui fica registrado o nosso agradecimento por tudo de grande que o senhor nos deixou: a sabedoria, que é a riqueza que ninguém, nenhum ladrão tem a ousadia de tirar! O senhor estava certo quando fazia aquelas previsões, o nosso país estar entregue aos civis e que vem aos poucos manchando a nossa querida bandeira brasileira, de um passado de glória e heroísmo que tão bem me contou.

 

Heraldo Ferraz.